DESENVOLVIMENTO DO CURRÍCULO ESCOLAR: Modelo Tyler versus Enfoque Globalizadores.

             O intuito deste texto é mostrar algumas vantagens do modelo Tyler (tradicional) e do modelo dos Enfoques Globalizadores (pós-crítico, isto é, uma nova interpretação dos mecanismos que geram o conhecimento) no desenvolvimento do currículo escolar, bem como, apresentar argumentos em defesa de um dos modelos, sem a pretensão de esgotar o tema em questão.

            Currículo para Ranghetti e Gesser (2009) é um termo da área educacional que apresenta diversas definições, podendo ser controversas e polissêmicas. Vejamos algumas definições de currículo: “- rol de disciplinas ou grade curricular a ser seguida; – determinação de objetivos, conteúdos e seqüência de atividades a ser implementada pela escola; – conjunto de conhecimento ou matérias a serem superadas pelo aluno;” (RANGHETTI; GESSER, 2009, p. 12). Além destas, existem muitas outras definições que não vamos citá-las no momento, pois segundo as autoras não existe um consenso referente ao termo currículo, devido ao fato dele ser “fruto do seu tempo histórico, econômico, político e social, revelando aspectos vinculados a relações de poder, o que configura o contexto educacional como um espaço fundamentalmente político, uma arena altamente contestada” (Ibidem, p. 18).

            Neste contexto, desde o surgimento do termo currículo até os dias atuais, o seu desenvolvimento sofreu várias modificações. Mas, foi em 1949 com Ralph Tyler que tivemos “início à teorização sobre o currículo escolar, constituindo-se no modelo considerado o clássico das teorias tradicionais de currículo, influenciando o mundo até atualidade” (Ibidem, p. 23). Este modelo curricular com base em teorias tradicionais para (RANGHETTI; GESSER, 2009, p. 32) é

 [...] assim caracterizado: organizado por objetivos; delineado por especialistas; implementado pelos professores; focado na transmissão e memorização de conteúdos; o aluno é passivo e reprodutor; centrado na aprendizagem mecânica e repetitiva; com foco na avaliação que visa o alcance dos objetivos por meio de instrumentos de medida ou observação.

 Desse modo, a primeira vantagem do modelo Tyler, segundo Pedra (1997, apud RANGETTI; GESSER, 2009, p. 79) é a “[...] a clareza e a linearidade da base racional, elaborada por Tyler, o que o torna um guia simples e seguro para a elaboração, o desenvolvimento e a avaliação do currículo”. A segunda vantagem que observamos é o fato de que a sua base racional

[...] começa por identificar quatro questões fundamentais que devem ser respondidas quando se desenvolve qualquer currículo e plano de ensino. Ei-las aqui: 1. Que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir? 2. Que experiências educacionais podem ser oferecidas que tenham probabilidade de alcançar esses propósitos? 3. Como organizar eficientemente essas experiências educacionais? 4. Como podemos ter certeza de que esses objetivos estão sendo alcançados?” (TYLER, 1983, p. 1).

             Essas questões são essenciais na elaboração e fundamentação do currículo, pois na acepção de Tyler (Ibidem, p. 5) “a educação é um processo que consiste em modificar os padrões de comportamento das pessoas” e “comportamento num sentido lato que inclui pensamento e sentimento, além da ação manifesta”.

            Neste sentido, por ser modificadora de comportamento,

 a educação é um processo ativo, que envolve os esforços ativos do próprio aluno. Em geral, este só aprende aquelas coisas que faz. Se as situações escolares versam sobre assuntos de interesse para o aluno ele participará ativamente dessas situações e aprenderá, assim a lidar eficientemente com essas situações (Ibidem, p. 10)

             Aqui vemos a terceira vantagem deste modelo, pois para Tyler esse processo mostra “que a eficiência cada vez maior com que ele [aluno] enfrenta situações presentes garante a sua capacidade de enfrentar novas situações à medida que estas surgem” (Ibidem).

            Portanto, devemos “salientar que o modelo curricular elaborado por Tyler foi o mais influente no campo curricular nas décadas que o sucederam e, até hoje, se constitui num marco na história do currículo escolar, em todo o mundo. Nem os americanos conseguem eleger outro” (MOREIRA, 1990, apud RANGHETTI; GESSER, 2009, p. 80).

            Já no modelo dos enfoques globalizadores de currículo o aluno se torna o foco central da educação, pois na perspectiva de Zabala,

 [...] os métodos globalizados nascem quando o aluno se transforma no protagonista do ensino; quer dizer, quando se produz um deslocamento do fio condutor da educação das matérias ou disciplinas como articuladoras do ensino para o aluno e, portanto, para suas capacidades, interesses e motivações (ZABALA, 1998, p.144).

             Para melhor compreendermos como funcionam os diversos métodos globalizadores vamos explicitá-los:

 • Os Centros de interesse de Decroly, os quais, partindo de um núcleo temático motivador para o aluno e seguindo o processo de observação, associação e expressão, integram diferentes áreas do conhecimento. • O método de projetos de Kilpatrick, que basicamente consiste na elaboração e produção de algum objeto ou montagem (uma máquina, um audivisual [...], etc.). • O estudo de meio do MCE (Movimento de Cooperazione Educativa de Italia), que busca que meninos e meninas construam o conhecimento através da seqüência do método científico (problema, hipótese, experimentação). • Os projetos de trabalho globais, em que, com o fim de conhecer um tema, tem que se elaborar um dossiê como resultado de uma pesquisa ou em equipe (Ibidem, p.146).

             Aqui observamos a primeira vantagem deste modelo, pois de acordo com Zabala, esses sistemas “partem de uma situação ‘real’: conhecer um tema, realizar um projeto, resolver certas interrogações ou elaborar um dossiê. A diferença fundamental entre eles está na intenção do trabalho a ser realizado e nas fases que devem ser seguidas” (Ibidem).

            Nos centros de interesse de Decroly na perspectiva do autor podemos observar uma segunda vantagem, visto que “aplica um método baseado na comprovação do fato de que as pessoas interessa sobretudo satisfazer as próprias necessidades naturais” (Ibidem), logo, “para cada centro de interesse se seguirão três etapas: observação pessoal e direta através das ciências; associação no espaço e no tempo e expressão através da língua, o desenho, o corpo…” (Ibidem, p.147).

          O método de projetos de Kilpatrick a “educação consiste em aperfeiçoar a vida em todos seus aspectos”, desse modo, “a finalidade da escola deve ser ensinar a pensar e a atuar de maneira inteligente e livre”, cujos “programas têm que ser abertos, críticos e não-dogmáticos, baseados na experiência social e na vida individual” (Ibidem, p. 148-149).

           A terceira vantagem dos métodos globalizadores é que dentro do método estudo do meio o Movimento de Cooperazione Educativa (MCE) da Itália

busca organizar e sistematizar o tateio experimental, assim como esclarecer os fundamentos psicopedagógicos da investigação da criança como processo natural de aprendizagem, e busca transformar a escola numa instituição em que o aluno ponha toda a sua bagagem cultural ao alcance dos demais para que se chegue, de modo conjunto, a conhecer o mundo cientificamente (Ibidem, p.150).

             Dentro deste contexto, mostraremos alguns argumentos em defesa dos métodos globalizadores, porque vivemos em um mundo permeado de grandes transformações, tanto no que tange a novas tecnologias devido ao grande avanço científico-tecnológico, como também em um mundo pós-moderno com novas formas de pensar e novas teorias, ou seja, num mundo em que temos de questionar, criticar, avaliar situações e nos comunicarmos de maneira eficiente para haja transformação e ampliação cada vez maior da melhoria das condições de vida dos seres humanos em todas as áreas. Com isso, não quero dizer que as teorias tradicionais sejam obsoletas e devam ser abandonadas em sua totalidade, mas quando tratamos do desenvolvimento do currículo escolar cujo objetivo é a formação de cidadãos, devemos sempre procurar torná-las mais eficazes e produtivas dentro do nosso contexto histórico.

           Portanto, um argumento de suma importância é que segundo Zabala (Ibidem, p. 147) no Decroly “a criança é ponto de partida do método” no sentido de “dar conta de que as diferenças individuais são muito grandes, tento em relação às aptidões com ao tempo de maturidade…”. Assim, “a criança não ó o queremos que seja, mas o que pode ser”. Outro argumento interessante é que “a alavanca eficaz de toda aprendizagem é o interesse. Mas não qualquer interesse, porém o profundo, nascido das necessidades primárias e que é manifestação dos instintos” (Ibidem p.148).

           Já no método de projetos de Kilpatrick, um argumento a ser destacado seria o vínculo das “atividades escolares à vida real, buscando que se pareçam ao máximo. Dá-se importância aos impulsos das ações, das intenções, propósitos ou finalidades da ação”, isso “torna o trabalho escolar algo autenticamente educativo, já que os próprios alunos o elaboram” (Ibidem p. 150).

            Por fim, finalizo argumentando que o método do Movimento de Cooperazione Educativa (MCE) da Itália procura desenvolver na criança um espírito científico que “é essencial no desenvolvimento do “hábito democrático”. Pois, vivemos “numa sociedade democrática” e para dar embasamento ao que já foi dito, esse “espírito científico formará cidadãos com capacidade de observar, avaliar, de escolher e de criticar, já que este espírito científico significa capacidade e aptidão para observar as coisas, mas sobretudo para interpretar suas relações” (Ibidem, p. 153).

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MOREIRA, Antonio Flavio Barbosa. Currículos e programas no Brasil. Campinas/SP: Papirus, 1990.

PEDRA, José Alberto. Currículo, conhecimento e suas representações. Campinas/SP: Papirus, 1997.

RANGHETTI, Diva Spezia; GESSER, Verônica. Estruturas Curriculares – Inter e Transdisciplinaridade. Indaial/SC: Grupo UNIASSELVI, 2009.x, 121p.

TYLER, Ralph Winfred. Princípios Básicos de Currículo e Ensino. Trad. Leonel Vallandro, 7. ed. Porto Alegre – Rio de Janeiro: Globo, 1983.

ZABALA, Antoni. A Prática Educativa: como ensinar. Trad. Ernani F. da F. Rosa. PortoAlegre: Artmed, 1998.

           Direitos Autorais: Ao usar este texto ou partes dele citar corretamente as fontes e o autor.

Autoria por ELIAS TERÊNCIO DA SILVA – Mestrando do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia da Universidade Ferderal de Uberlândia.

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