RESENHA DA OBRA: Introdução ao Pensamento Epistemológico.

RESENHA DA OBRA: JAPIASSU, Hilton Ferreira. Introdução ao Pensamento Epistemológico. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2ª ed., 1977. 202 p.

Esta obra trata de uma reflexão epistemológica e inicia apresentando alguns instrumentos conceituais: “Saber”, “Ciência” e “Epistemologia”. Estes conceitos abrem caminhos para a compreensão da epistemologia contemporânea. Segue apresentando elementos e instrumentos de reflexão epistemológica sobre os processos de gênese,  desenvolvimento, estruturação e articulação dos conhecimentos científicos. Visando analisar o projeto fundamental da Epistemologia Genética de Jean Piaget, a Epistemologia Histórica de G. Bachelard, a Epistemologia “Racionalista-crítica” de K. Pupper, a Epistemologia “Arqueológica” de M. Foucault, a Epistemologia “Crítica” e o posicionamento da filosofia.

Ao abordar as concepções de epistemologia é notória a dificuldade de estabelecer uma definição precisa do termo epistemologia. Japiassu (1977) coloca de forma sucinta uma apresentação de diversas considerações que o termo epistemologia foi sendo construído pelas ciências e filosofia.

A conceitualização de alguns instrumentos torna-se importante para o engajamento na reflexão epistemológica, preocupada em situar os problemas e colocá-los na prática efetiva da epistemologia e da ciência. Não há pretensão de analisar todos os problemas da epistemologia, mas somente apresentar uma síntese de algumas concepções do discurso sobre o saber, a ciência e a epistemologia em sua historicidade, definindo métodos e ou modelos de construção do conhecimento.

O termo “Saber” é considerado como um conjunto de conhecimentos metodicamente organizados a serem transmitidos por um processo pedagógico de ensino, podendo ser aplicado na aprendizagem de ordem prática como, “saber fazer”.

O termo “Ciência” deve ser considerado como o conjunto de aquisições intelectuais, de um lado a matemática, do outro, as disciplinas de investigação do dado natural e empírico, mas sempre tendendo a matematização. Entre saberes e ciências intercalam várias disciplinas incertas: história, eruditas, jurídicas. Os saberes “especulativos” que não são ciências: 1) Racional; Filosofia e 2) Crente ou Religioso: Teologia. As ciências que não são saberes “especulativos”: 1) Matemáticas e 2)  Empíricas e Positivas.

O termo “Epistemologia” é definido como estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, formação, desenvolvimento, funcionamento e produtos intelectuais. Haveria assim, três tipos de epistemologias: 1) Epistemologia global (geral): saber globalmente considerado, virtualidade e problemas, especulativos ou científicos;  2) Epistemologia particular: consideração de um campo particular do saber, especulativos ou científico; e 3) Epistemologia específica: consideração de uma disciplina intelectualmente constituída em unidade definida do saber, de modo a estudá-la detalhada e tecnicamente, em sua organização, funcionamento e relações que mantém com outras disciplinas.

O termo saber e pré-saber podem ser considerados como uma primeira aquisição não científica de estados mentais, constitutivos de  certa cultura, já formados de modo mais ou menos natural e espontâneo. Portanto todo saber humano relaciona-se a um pré-saber, a epistemologia contemporânea reconhece este fato, do qual podemos analisar mediante os estudos epistemológicos apresentados na presente obra. É relativo ao saber que há um pré-saber e, em função desta relação é definido algumas categorias epistemológicas significativas:

- Categoria de Obstáculos epistemológicos (Bachelard): “resistência ou inércia do pensamento ao pensamento”. Surge em face de necessidade intelectual do saber às tentativas de aproximação deste saber.

- Categoria de Corte Epistemológico (Bachelard): ciência se constitui cortando com sua pré-história e com seu meio ambiente ideológico. Surge em face da necessidade de definir a atitude científica por oposição à atitude pré-científica.

- Categoria de Vigilância Epistemológica: atitude reflexiva sobre o método científico, aprender a lógica do erro, constituindo a lógica da descoberta cientifica.

- Categoria de Recorrência Epistemológica: torna possível o desenvolvimento de uma história teórica ou de um conhecimento teórico das Ciências. E esta que permite compreender o devir real de uma ciência.

 II. O termo “Epistemologia”

 A Epistemologia é uma disciplina recente cuja construção é demasiadamente lenta e gera conflitos em virtude de certos antagonismos fundamentais por parte das abordagens epistemológicas. Apresenta certa dificuldade de definição de seu estatuto, tanto em relação às Ciências quanto em relação à Filosofia. O campo de pesquisa da epistemologia é imenso, por isso há uma variedade de conceitos da epistemologia.

Citemos algumas dessas variedades sobre o termo epistemologia, apresentadas na obra, que podem ser analisadas com maior aprofundamento, por meio de uma leitura mais detalhada.

Epistemologia:

- Significa etimologicamente, discurso (logos) sobre a ciência (episteme). Surgiu a partir do século XIX no vocabulário filosófico;

- Epistemologias tradicionais, chamadas de filosofia das ciências;

- Discurso segundo o qual o discurso primeiro da ciência deveria ser refletido;

- Discurso ambíguo: encontraria na filosofia seus princípios e na ciência seu objeto. Teria por função resolver o problema geral das relações entre a filosofia e as ciências;

- Tradicionalmente, considerada como uma disciplina especial no interior da filosofia. Todas as filosofias desenvolveram uma teoria do conhecimento e uma filosofia das ciências que tem como objetivo evidenciar meios do conhecimento científico, elucidando e validando objetos e conhecimento;

- Para Lalande – a epistemologia é a filosofia das ciências. É um estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências. Determina a origem lógica das ciências, valor e alcance. Dessa concepção podemos depreender, a epistemologia usaria a ciência como simples pretexto para filosofar: 1. Situando o lugar de conhecimento; 2. Estabelecendo limites de conhecimento; 3. Buscando a natureza da ciência;

- Tarefa da epistemologia consiste em conhecer o conhecimento e todas as etapas de sua estruturação, chegando a um conhecimento provisório jamais acabado ou definitivo;

- Função essência: submeter à prática dos cientistas a uma reflexão, tomando por objeto as ciências por vias de se fazerem em seu processo de gênese, de formação e de estruturação progressiva.

- Problema da epistemologia – consiste em estabelecer se o conhecimento poderá ser reduzido a puro registro, pelo sujeito, independente dele num mundo exterior (físico ou ideal) ou se o sujeito poderá intervir ativamente no conhecimento dos objetos. É desta tomada de posição que a epistemologia pode repartir-se em duas categorias: 1. Epistemologias Genéticas – o acordo entre sujeito e objeto deverá ser estabelecido progressivamente. O conhecimento deve ser analisado de um ponto de vista dinâmico (formação e desenvolvimento), e em sua estrutura evolutiva; 2. Epistemologias não-Genéticas – o acordo entre sujeito e objeto deve ser feito desde a origem, não sendo aceita a perspectiva histórica ou temporal. O conhecimento é estudado de um ponto de vista estático ou sincrônico, em sua estrutura atual;

- As epistemologias atualmente vivas estão centradas nas epistemologias contemporâneas, das relações entre sujeito e objeto; fenomenológica – Husserl; construtivista – Piaget; histórica – Bachelard; arqueológica – Foucault.

- A epistemologia se situa na intersecção de preocupações, tratando-se de uma divisão nas maneiras de abordar a epistemologia.

 III. Contribuições Epistemológicas

 Partindo do pressuposto de que toda abordagem epistemológica encontra uma tradição filosófica, os grandes filósofos foram teóricos do conhecimento, construíram teorias do conhecimento, visando os diversos tipos de saber e suas fontes: razão, imaginação, experiência, etc. e de certa forma estiveram vinculados ao progresso das ciências. É por meio de uma epistemologia associada às diversas disciplinas que podemos interpretar os conhecimentos passados historicamente, posicionando-os como reflexão sobre as ciências. Sobre o que fazem, como se constroem e principalmente numa abordagem pedagógica “como se dá um estágio de menor conhecimento para um estágio de maior conhecimento”. Esta questão não é apenas uma reflexão científica, mas sim uma reflexão epistemológica. Mediante a epistemologia e as contribuições de outras disciplinas, da filosofia e dos estudos epistemológicos de Jean Piaget podemos encontrar respostas sobre a construção do conhecimento. Fator hoje necessário e imprescindível de discussão para os pesquisadores da área pedagógica, no que concerne à aprendizagem humana.

Por meio da história das ciências podemos interpretar os conhecimentos transmitidos em detrimento dos conhecimentos atualmente presentes, os valores da época, as atitudes, as noções e os métodos utilizados. É, portanto, através da epistemologia que a história das ciências permite discernir os conhecimentos científicos superados e os conhecimentos científicos atuais. Há uma relação entre o historiador da ciência que toma as idéias como fato e o epistemólogo que toma os fatos como idéias, inserindo-os num contexto de pensamento. Assim, tanto a ciência como a filosofia contribuem para a compreensão das teorias do conhecimento. Não há como pensar separadamente uma epistemologia, sem relações com a ciência, ou mesmo com a filosofia. E há de se pensar em ciência com relações com a filosofia. Desta forma, compreender a posição das filosofias das ciências articuladas com as demais disciplinas e epistemologias.

Muitas questões de epistemologias com a contribuição da psicologia das ciências passaram a ser resolvida. A epistemologia psicológica se articula com as diferentes etapas do conhecimento e esta é elaborada por Jean Piaget, mediante as epistemologias genéticas, criadas para encontrar respostas que a filosofia das ciências e a história das ciências não puderam explicar através de suas respostas. É através da contribuição epistemológica psicológica que, hoje, podemos colocar o problema fundamental sobre as indagações: conhecimento – refletindo e investigando “como o conhecimento é possível?” Não poderia deixar de mencionar a Sociologia do Conhecimento que contribui enquanto atividades sociais inseridas em determinado contexto sociocultural. Esta ainda deverá ser fonte de investigação no sentido de detectar ainda uma construção sobre as relações sociais do sujeito com a sociedade e a cultura e como construção do conhecimento, desenvolvimento e aprendizagem.

Entre a epistemologia histórica de G Bachelard e a Epistemologia Arqueológica de M Focault é apresentada uma referência à epistemologia genética de Jean Piaget, citada em um dos capítulos da obra, devido à importância que há nos estudos sobre ensino e aprendizagem e nos modelos construtivistas como prática educacional. Devemos compreender a epistemologia genética desenvolvida por Piaget para entendermos a construção do pensamento, o desenvolvimento da inteligência, memória, atenção, motivação e outros. Esta epistemologia genética é considerada uma das mais importantes epistemologias, por ter sido aplicada com métodos próprios de investigação, validando a teoria e a prática de uma observação do sujeito e da relação com o objeto.

A epistemologia genética como extensão das ciências humanas e da metodologia, possibilitou a Piaget a realização de trabalhos sobre o desenvolvimento da criança.

Portanto, a epistemologia pode ser definida como o estudo da constituição dos conhecimentos válidos, que dizem respeito, às contribuições dos estudos sobre o sujeito, o objeto e o processo de estruturação do conhecimento. Para Piaget, a ciência se faz se tiver reunido três elementos, a saber: a elaboração de fatos; a formalização lógico-matemática e o controle experimental. Piaget define dois tipos de epistemologias restritas e generalizadas. Ele defende a constituição de uma epistemologia científica, livre de toda teoria filosófica ou de qualquer contaminação ideológica do conhecimento que não se constitui em presença das ciências que existem efetivamente. Pois tudo o que se deve dizer ao mundo, deve ser dito cientificamente e não especulativamente.

IV. Considerações Finais

A própria obra coloca a dificuldade de propor considerações finais. Os estudos apresentados pretendem introduzir uma reflexão sobre as epistemologias que circulam sobre a introdução ao pensamento epistemológico.

A proposta de situar a epistemologia genética como forte contribuição nos motiva à leitura e o estudo mais detalhado.

Por fim, proponho a leitura desta obra àqueles que se interessam pela questão epistemológica, de modo a viajar através da historicidade do qual foram construídas as concepções sobre a epistemologia, a ciência e a filosofia. Que não se deixem distanciar-se por interpretações inequívocas com relação ao papel da Filosofia e da Ciência para a construção do conhecimento, para a validação de uma teoria do conhecimento. Na parte da obra que apresenta e descreve a contribuição da epistemologia genética de Jean Piaget e a passagem da filosofia, o autor consegue abordar os aspectos deixando nitidamente fácil a importância da epistemologia para a compreensão da construção científica.

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